sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Hawking diz: Hawking errou
O célebre físico inglês Stephen Hawking acaba de dar uma nova tacada de mestre – só que ela mais parece um tiro no próprio pé. Hawking assumiu, na quarta-feira passada, que esteve errado durante os últimos trinta anos em uma de suas mais instigantes proposições, a de que certas regiões muito especiais do espaço, os "buracos negros", funcionariam como túneis que dão passagem para outros universos, paralelos ao nosso. O físico disse que reviu essa parte de sua teoria sobre os buracos negros. Novamente contradizendo a si próprio, voltou atrás no que seria outra assombrosa característica daqueles corpos celestes. O físico sustentou por anos que toda matéria que porventura caísse nos buracos negros perderia para sempre sua identidade e liberaria para o universo apenas uma forma de energia inespecífica batizada de "radiação Hawking". Agora ele voltou atrás e reconheceu que os corpos consumidos pelas forças descomunais dos buracos negros emitiriam, sim, uma radiação particular, que denunciaria sua origem (veja quadro). São muitas as conseqüências para a ciência da retratação feita por seu maior representante vivo, o homem que ocupa na Universidade de Cambridge a cadeira que um dia foi de sir Isaac Newton, um dos pioneiros na investigação matemática da natureza.
A teoria sustenta que os buracos negros são fósseis da explosão de estrelas imensas, com massa pelo menos dez vezes maior que a do Sol. Eles surgem quando a fornalha estelar consome a maior parte do combustível que a mantém acesa. A estrela, então, desmorona sobre si mesma, esmagada pela própria gravidade. O que resta é um corpo pequeno, mas extremamente denso e dotado de uma força gravitacional imensurável, que não deixa nem a luz escapar. Por isso os buracos negros são invisíveis aos telescópios. Eles apenas denunciam a presença deles pelas alterações energéticas que produzem à sua volta. A existência dos buracos negros foi formulada há mais de 200 anos, mas eles foram assim batizados, em 1967, pelo físico americano John Wheeler, que trabalhou com Albert Einstein.
Já se tinha a idéia, então, de que esses corpos seriam como o ralo de uma pia. Tudo o que passasse perto escorreria por eles, sendo sugado para além dos limites do universo observável. Nada que caísse nessa esmagadora malha poderia ser recuperado. Em 1975, Hawking propôs que esses aspiradores de pó celestiais liberariam alguma coisa, sim: um tipo de radiação que não trazia nenhuma informação sobre o objeto que a emitira – o que viria a ser chamado de "radiação Hawking". Acontece que esse conceito se choca de frente com as leis da física quântica, segundo as quais as partículas de matéria não podem jamais ser totalmente destruídas. Alguma informação sobre elas tem de sobreviver no universo, seja na forma de matéria, seja na forma de radiação. Por que os buracos negros teriam, então, a capacidade de dar sumiço a essa informação? Esse era o paradoxo. Para Hawking, a terrível força gravitacional dessas regiões do espaço alteraria as leis conhecidas da natureza. Como isso ocorreria não estava ainda resolvido. É nesse ponto que acontece a rendição do professor da Universidade de Cambridge: ele agora admite que a matéria que mergulha num buraco negro deixa para trás uma assinatura.
Isso tudo pode parecer muito abstrato e distante do dia-a-dia do cidadão comum. E é mesmo. "Os físicos, ao construir uma teoria, não pensam em sua aplicação utilitária imediata. Por trás das complicadas equações, tentamos responder a uma das questões fundamentais do homem: de onde viemos", diz o físico Elcio Abdalla, da Universidade de São Paulo. A teoria da relatividade geral, que trata das leis que regem as grandes estruturas do cosmo, reflete, de alguma forma, o pensamento de Santo Agostinho, segundo o qual, antes de Deus criar o céu e a Terra, não havia nada, nem o tempo. Paralelamente, pelas idéias de Einstein, todo o universo – seus corpos, o espaço e o tempo – teria uma data certa de nascimento, e o que havia antes disso não deve sequer ser perguntado. Afinal, se nem o tempo existia, como poderia haver um "antes"? É essa barreira que os cientistas sonham quebrar um dia. Para isso, eles tentam juntar aos conceitos da relatividade geral outro pilar da física moderna – a mecânica quântica, que explica o comportamento das menores partículas. Os buracos negros se prestam bem para testar essa união, porque exibem situações extremas para ambas as teorias.
Existem alternativas para juntar essas teorias – algumas delas propondo, inclusive, que o universo tenha cerca de dez dimensões. Por isso será preciso muito estudo até que se possa testar a proposta de Hawking – aliás, boa parte dos 700 cientistas que assistiram à palestra confessou pouco ter entendido dela. Um dos presentes era o físico americano John Preskill, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), com quem o gênio inglês fez uma aposta há sete anos, garantindo que os buracos negros não devolveriam nada para este universo. Ao assumir a derrota, Hawking pagou a dívida, dando ao americano uma enciclopédia sobre beisebol. A metáfora é clara: ao contrário da antiga visão de Hawking sobre os buracos negros, as enciclopédias não escondem seu conteúdo – elas existem exatamente para propagar informação.
Fonte: http://veja.abril.com.br/280704/p_064.html
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